De funcionários a donos: casal compra livraria onde trabalhava e encerra história após 46 anos em Uberlândia

  • 23/08/2026
(Foto: Reprodução)
De funcionários a donos: casal compra livraria onde trabalhava e encerra história após 46 A Itacolomy, livraria e revistaria que funcionou por 46 anos em Uberlândia, fechou as portas no dia 16 de agosto. O encerramento surpreendeu clientes e ex-frequentadores. Para Maria José Vieira Bruno, a Zezé, e Reginaldo José Rodrigues Bruno, a despedida tem um significado diferente. Eles se conheceram quando eram funcionários na Itacolomy, no Centro de Uberlândia. O relacionamento começou no ambiente de trabalho e, depois, os dois se casaram em uma união que soma 34 anos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Os dois também passaram de funcionários a proprietários da livraria depois de quase 30 anos no quadro de pessoal, compraram a livraria após falecimento do antigo proprietaário. Acompanharam as mudanças no mercado editorial impresso e depois de quase 15 anos à frente do negócio, decidiram encerrar as atividades. “Nos orgulhamos da nossa trajetória até aqui, criamos duas filhas com nosso trabalho de domingo a domingo na livraria, onde fizemos muitos amigos. Vai ficar um vazio grande, mas deixou de ser um bom negócio faz tempo, estamos cansados”, disse Zezé. A relação com os clientes Para Zezé, a Itacolomy deixou uma história marcada pelos encontros com clientes e leitores que frequentaram o espaço ao longo das décadas. “Temos os avós que compravam os jornais, os filhos que foram depois e os netos. Com os encontros na livraria aos domingos ficamos populares. Temos clientes que viraram amigos e ficamos emocionados com tantas reações de carinho nas redes sociais quando anunciamos o fechamento”, contou Zezé. Convivência Zezé e Reginaldo acompanharam mudanças no mercado editorial ao longo dos anos, como o crescimento das vendas pela internet, o fechamento de jornais e revistas e a redução do número de títulos impressos. Nos últimos anos, para manter a empresa em funcionamento, o casal precisou abrir mão dos funcionários e assumir todas as tarefas. Zezé contou que as duas filhas seguiram caminhos profissionais diferentes dos pais, mas cresceram convivendo com os livros e as revistas da Itacolomy. “Fomos guerreiros, diversificamos o negócio, aumentamos a oferta de outros produtos, mas chegou a hora de parar. Ficamos tristes porque sei que muitas crianças hoje não conhecerem o espaço de uma revistaria como a nossa, mas fico feliz pela história que vivemos nesses 44 anos”, comentou Zezé. Agora, Zezé e Reginaldo vão aproveitar a aposentadoria. Com o fechamento da Itacolomy, ficam as lembranças das décadas de trabalho, dos clientes e da história construída pelos dois no local. Interior da Itacolomy na rua Goiás e Zezé e Reginaldo, proprietários da revistaria que fechou as portas após 44 anos em Uberlândia Divulgação Memórias da rua Goiás Marcelo Pereira Lima tinha um refúgio na adolescência na Itacolomy Lara L. Lima/Divulgação A Revistaria e Livraria Itacolomy teve dois endereços em Uberlândia. Nos últimos três anos, funcionou na avenida Segismundo Pereira, no bairro Santa Mônica. A primeira unidade ficava na Avenida Afonso Pena, entre as ruas Quintino Bocaiúva e Coronel Antônio Alves Pereira, mas foi na esquina da avenida Afonso Pena com a Rua Goiás que a Itacolomy conquistou uma grande base de fãs. “Minha primeira lembrança da Itacolomy é de quando vim para Uberlândia em janeiro de 1991, aos 14 anos de idade, cheio de medos, inseguranças sobre o futuro, sem amigos, e buscava refúgio nos gibis de heróis”, conta Marcelo Pereira de Lima, de 49 anos, analista de comunicação. Na Itacolomy, ele encontrava títulos da DC Comics, como “Liga da Justiça”, “Batman” e “Super-Homem”. Depois, passou a procurar também materiais sobre música, uma paixão, cursos de eletrônica para complementar os estudos e, eventualmente, jornais. "Esses hábitos seguiram até o começo dos anos 2000, quando o acesso à internet se ampliou. A partir daí, raramente voltei à livraria, quando ia era para comprar alguma revista colecionável que vinha com CD", explicou. Espaço para autores locais O artista visual Rosemário de Souza também guarda lembranças da Itacolomy desde os anos 1990. Entre as principais memórias estão os álbuns de figurinhas de rock e fantasia. “Eram longas caminhadas com os amigos, do bairro Tibery para o Centro, para comprar figurinhas e conhecer mais sobre a iconografia do rock, num tempo em que a informação era escassa. Também me marcou a arquitetura do prédio: linda, clássica, marcante”, recorda. Rosemário também se lembra da variedade de publicações encontradas na loja, entre elas 'Elle', 'X-Men', 'Quatro Rodas', 'Rock Brigade', 'Superinteressante'. Ele ainda mantém parte do acervo que comprou na livraria. Entre as publicações que conheceu no local estava a revista 'Zupi', voltada para design, que comprava todos os meses. Rosemário recebeu com tristeza a notícia do encerramento das atividades da revistaria, embora já não frequentasse o local como antes. Segundo ele, a Itacolomy também era um espaço para divulgação de produções locais. “Eu mesmo já deixei publicações minhas na Itacolomy e via muito material de autores de Uberlândia lá. Realmente as coisas estão mudando, é uma era que se vai.” A partir de 2010, Rosemário passou a comprar mais histórias em quadrinhos, principalmente aos finais de semana. Ele se lembra das conversas entre os clientes que compravam jornais e discutiam política nas manhãs de domingo. Rosemário afirmou que esteve poucas vezes no último endereço da Itacolomy, na Segismundo Pereira. Para ele, as compras online tomaram conta do mercado editorial. "O conforto de receber tudo em casa, por preços menores, acaba sendo irresistível. Isso vem tirando a gente das livrarias", afirmou. Impresso x Digital Rosemário Souza ainda guarda parte dos títulos adquiridos na Itacolomy nos anos 1990 e 2000 Divulgação Como artista visual, Rosemário percebe que o material impresso vem sendo substituído pelo conteúdo digital. Para ele, se essa tendência continuar, as publicações impressas podem assumir cada vez mais um caráter artístico, como ocorreu com a gravura, que já foi usada para ilustrar publicações e hoje é consumida como forma de arte. Para Rosemário, o fechamento da Itacolomy também representa uma mudança na forma como as pessoas se relacionam com o material impresso. “Não sei se para melhor ou pior. Uma coisa é certa: as interações com os outros leitores das bancas, as caminhadas juntos em busca de figurinhas, tudo isso vai ficando para trás, como experiência coletiva. Restam as visitas solitárias aos sites de compra que entregam gratuitamente no conforto do seu lar.” Leia também: Camaru 2026: Renato Teixeira é confirmado no 'Festival Cultural Uai Sô' Escritora uberlandense ganha prêmio nacional com livro infantil Conheça segredo de receita de pão de queijo que virou atração em cafeteria Itacolomy avenida Afonso Pena, esquina com a rua Goiás Divulgação VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/08/23/de-funcionarios-a-donos-casal-compra-livraria-onde-trabalhava-e-encerra-historia-apos-46-anos-em-uberlandia.ghtml


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